Charlie Chaplin (1889-1977)

Este é um momento muito emocionante para mim e as palavras parecem fúteis. Só posso dizer ‘obrigado’ pela honra de ter sido convidado. Vocês são maravilhosos“, disse Chaplin, em lágrimas, quando Hollywood o homenageou em 1972 com um Oscar honorário, minimizando uma das inúmeras injustiças que a Academia cometeu em toda sua história e, ao mesmo tempo, reestabelecendo a reputação de Chaplin junto aos americanos.Charles – ou apenas “Charlie” Chaplin – não fez nem ao menos uma crítica ao mundo que o vetou politicamente durante a época da “caça às bruxas”; era seu retorno após 20 anos de exílio na Europa, e só agradeceu o reconhecimento e o afeto, embora tenha voltado a desprezar a palavra, cuja chegada ao cinema nunca encarou de maneira muito confortável.

Nascido em Londres no ano de 1889, o pequeno Charles Spencer Chaplin decidiu ser comediante quando, durante uma doença que o manteve de cama por semanas, sua mãe representava o que acontecia na rua para entretê-lo. De origem muito pobre, a infância britânica de Chaplin foi digna dos mais desesperançados relatos de Charles Dickens e retratada por ele mesmo de maneira indireta no magistral O Garoto (1921).

E o que fez Chaplin ser mestre da comédia foi, provavelmente, seu profundo conhecimento do drama e das emoções de sua própria vida, que ficaram registradas em uma filmografia marcada por crianças, por uma cega em Luzes da Cidade (1931) e, claro, pelo desamparo de seu imortal vagabundo Carlitos.

Em 1912, o ator se mudou para os Estados Unidos; em 1918, fundou seu próprio estúdio, e sua crescente popularidade – foi o primeiro ator a ser capa da revista Time, em 1925 – o tornou o maior ícone do cinema mudo. Mas sua mente atormentada e sua complexa personalidade encontraram inimigos em pouco tempo: os britânicos, por o considerarem traidor, e a crítica, principalmente anos mais tarde, por ofuscar outros fenômenos cômicos da época como Harold Lloyd e Buster Keaton.

Devido aos seus discursos a favor da Rússia ao final da 2ªGuerra Mundial e à figura de Carlitos (que foi adotada pela esquerda mundial como o padrão do homem do povo, vítima da sociedade), foi perseguido pelo macarthismo americano, sendo impedido de continuar vivendo nos Estados Unidos. Chaplin mudou-se então para a Suíça, onde entrou rapidamente em declínio. Seus últimos filmes foram decepcionantes. Um Rei em Nova Iorque (A King in New York, 1957) satirizava os americanos e não foi lançado nos EUA até 1976; num ato de coragem ou audácia fez sua volta à direção em 1967 no fraco A Condessa de Hong Kong (A Countess From Hong Kong), uma comédia estrelada por Marlon Brando e Sophia Loren.

Suas inclinações políticas se chocaram contra o Comitê de Atividades Antiamericanas – que enxergou conteúdos comunistas em Tempos Modernos (1936) e O Grande Ditador (1940) – e seus casamentos, sempre com mulheres bem mais novas do que ele, o tornaram persona non grata para a moral vigente na época. Hollywood reparou seu erro somente na década de 70 e, além da citada homenagem honorária, deu a Chaplin um novo prêmio pela música que ele compôs para Luzes da Ribalta (1952), que nunca havia estreado em Los Angeles até então.

Chaplin morreu enquanto dormia aos 88 anos na madrugada de 25 de dezembro de 1977, na localidade suíça de Vevey, mas seu corpo ainda sofreu um último revés tragicômico: foi roubado do cemitério local em março de 1978 e só foi encontrado pela Polícia mais de dois meses depois. Só poderia acontecer mesmo com Carlitos.

Filmes recomendados de Charlie Chaplin:

O Garoto (The Kid, 1921) – Carlitos encontra um bebê em uma lata de lixo deixado por uma mãe desesperada e decide levá-lo para sua pobre casa, adotando-o. Cinco anos depois descobre que a mãe virou uma pessoa famosa, e tenta devolver a criança a ela, não sem antes muitos encontros e desencontros se realizarem.

Em busca do Ouro (The Gold Rush, 1925) – Durante a corrida do ouro no final do século 19, Carlitos tenta a sorte no Alasca. Porém, tudo o que ele consegue é arrumar bastante confusão com Jim McKay (Mack Swain) e se apaixonar pela dançarina Georgia (Georgia Hale).

O Circo (The Circus, 1928) – Carlitos vai parar em um circo enquanto foge da polícia, que o confundira com um ladrão, e sem querer acaba entrando no espetáculo e fazendo grande sucesso com o público, sendo logo contratado pelo dono, que irá se aproveitar dele. Chaplin também se apaixona pela acrobata, filha desse mesmo proprietário. Vencedor de um Oscar Honorário.

Luzes da Cidade (City Lights, 1931) – Carlitos se apaixona por uma jovem florista cega, que no entanto pensa que ele é milionário. O homem rico é, na verdade, um depressivo prestes a cometer suicídio, mas que é salvo pelo próprio Carlitos. Sem dúvida, um final inesquecível e comovente.

Tempos Modernos (Modern Times, 1936) – Carlitos vira operário de fábrica, mas enlouquece com o ritmo intenso do trabalho braçal onde consegue o seu ganha pão. Crítica de Chaplin à mão-de-obra explorada pelas grandes indústrias. De tantas obras-primas, esse filme talvez resuma toda a inventividade e filmografia de Chaplin.

O Grande Ditador (The Great Dictator, 1940) – Apenas um gênio como Chaplin conseguiria fazer uma sátira como esta, em pleno início de 2ª Guerra Mundial, sem ofender ninguém e com cenas realmente engraçadas no conteúdo. Indicado a 2 Oscars – Melhor Ator (Chaplin) e Roteiro. Aqui abaixo, a famosa cena com o globo terrestre.

Monsieur Verdoux (1947) – Sublime comédia de humor negro sobre um homem que usa o assassinato como artifício secreto para sustentar seus filhos e sua mulher deficiente. Indicado ao Oscar de Melhor Roteiro, que Chaplin escreveu juntamente com Orson Welles.

Luzes da Ribalta (Limelight, 1952) – Um palhaço em decadência se apaixona por uma bailarina que está superando as dificuldades após uma tentativa de suicídio. Ganhou em 1972 um Oscar Honorário pela trilha sonora, escrita por Chaplin.

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